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Woccu: O cooperativismo financeiro global na ordem dia, por Ênio Meinen - 2015-08-03 09:43:12.0

“Pelo resto de meus dias
seguirei o ideal de promover esta organização fantástica, 
o braço econômico das sociedades democráticas.”
(Roberto Rodrigues, ao receber o reconhecimento
“Distinguished Service Award – DAS/Woccu,
pelo conjunto de sua obra em favor do cooperativismo global)

A agenda da edição de 2015 da Conferência Mundial do Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito (Woccu), realizada em Denver (Colorado – EUA), no período de 13 a 15 de julho corrente, trouxe a debate um conjunto de matérias relevantes para o setor em escala global.
O tema da inovação tecnológica permeou praticamente todo o fórum, merecendo destaque em diferentes painéis. Das inúmeras conclusões, parece inegável que a forma tradicional de conexão entre as instituições financeiras – cooperativas entre elas – e os usuários dos serviços bancários está dando espaço para um tratamento cada vez mais virtual, notadamente no campo transacional. Os smartfones e outros dispositivos móveis acentuarão, vigorosamente, a sua presença nessa indústria, exigindo que se reinvente a destinação ou a utilidade dos atuais pontos de atendimento físicos.
Além de assimilar as aceleradas e profundas mudanças nos processos operacionais, as instituições financeiras (incluindo as cooperativas) terão de lidar com outro grande desafio, voltado para a atração e retenção de novos consumidores de seus serviços. A geração “Y” – adolescentes e jovens adultos entre 15 e 35 anos – não está nem um pouco disposta a manter os padrões ortodoxos de relacionamento bancário, exigindo uma completa transformação no setor. Os novos entrantes querem pouca burocracia (de preferência, o “enterro” do papel), agilidade, comodidade, flexibilidade e soluções com alta disponibilidade remota. Se os agentes financeiros não forem ao encontro de tais expectativas, conduzirão esse público definitivamente para o mundo da desintermediação financeira, onde muitos “Millennials”, por sinal, já se encontram…
Adicionalmente, há que se introduzir mudanças profundas no modelo de comunicação com o público jovem. A utilização intensiva das redes sociais, com uma linguagem que faz sentido para essa neoexigente “comunidade”, parece ser um dos caminhos. Ter na cooperativa profissionais que falam a língua dos potenciais entrantes, tanto para a interlocução comercial como na gestão da entidade, é outra providência indispensável.
Na seara dos desafios tradicionais, escala » eficiência » competitividade tornaram a merecer destaque como requisitos de sustentabilidade do empreendimento cooperativo. Neste particular, a aglutinação (incorporação) entre cooperativas, o compartilhamento de atividades de retaguarda/apoio ao negócio, a ampliação do contingente de cooperados (atenção especial aos jovens, às mulheres e aos pequenos empreendedores) e a densificação do relacionamento comercial com os membros já existentes constam entre as principais variáveis da solução.
Especificamente quanto ao incremento do quadro associativo, a agenda aponta a oportunidade da inclusão de pessoas ainda não participantes do mercado financeiro ou apenas parcialmente servidas pela indústria bancária. A estimativa indica que haja cerca de 2,5 bilhões de pessoas excluídas do sistema financeiro global.
No campo da governança, as maiores atenções estão voltadas ao processo sucessório das lideranças e dos principais executivos – aspecto este bastante negligenciado no mundo cooperativo – e à adequada capacitação dos membros de órgãos estatutários.
Outra preocupação recorrente no cooperativismo financeiro mundial é a necessidade de capital para viabilizar os (novos e altos) investimentos, em particular no campo tecnológico, permitir a alavancagem operacional e, diante dos dispendiosos (e previdentes) padrões regulamentares, suportar os riscos no setor.
Aspectos domesticamente bem equacionados, mas que remanescem como itens obrigatórios da agenda institucional do movimento em escala global, são as demandas por um marco regulatório mais perene, flexível (societária e operacionalmente) e incentivador do empreendimento mutualista, bem como por uma maior simpatia do poder público com a causa, incluído aqui o desejo da interlocução mais fluente com os órgãos de supervisão oficiais.  
Ainda na perspectiva institucional, renova-se o apelo para uma maior unidade do movimento cooperativo, intra e intersistemicamente, de modo a fortalecer a posição do setor junto ao governo e à sociedade.
Como macropropósitos da ação cooperativa, reitera-se a importância da fidelidade aos seus valores e princípios, que contemplam a preocupação com a inclusão financeira, a sustentabilidade socioambiental, a justa precificação, o respeito ao cooperado e a gestão democrático-participativa do empreendimento pelos membros.
Por fim, embora o “gap” ainda existente em relação ao fator gênero, louve-se a sensibilidade das lideranças do Woccu em alçar à autoridade máxima do Conselho, pela primeira vez, uma representante do universo feminino. Cumprimentos e uma bem-sucedida gestão à Sra. Anne Cochran (EUA)!
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Ênio Meinen, advogado, pós-graduado em direito (FGV/RJ) e em gestão estratégica de pessoas (UFRGS), e autor/coautor de vários artigos e livros sobre cooperativismo financeiro – área na qual atua há 31 anos -, entre eles “Cooperativismo financeiro: percurso histórico, perspectivas e desafios”. Atualmente, é diretor de operações do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob).

Fonte: Portal do Cooperativismo de Crédito disponível em


 
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